terça-feira, 29 de julho de 2014

Ele e o Mundo - Escrita Livre #1

«No fundo, o que importa e será sempre verdade, é que mesmo nos piores momentos, tudo pode mudar numa fracção de segundos; uma pessoa, um gesto, um objecto, uma palavra, um silêncio ou um olhar»

"Ele só queria que o mundo acabasse. Ao acabar o mundo, acabava tudo o que o perturba. Não ao mundo, mas a ele. Porque ele está cansado. Tanto percorreu, tanto que podia ter alcançado, mas perdeu tudo. Perdeu a esperança, perdeu o acreditar, perdeu os sonhos, perdeu a própria realidade; ele perdeu o mundo e o mundo perdeu-o.

Foi durante a sua maior derrota que procurou abrigo num local isolado. Isolou-se do mundo, isolou-se das gentes, isolou-se de si próprio. Aos poucos, cada vez mais distante, conseguia isolar-se da sua condição humana, tornando-se alguém insensível, capaz de disfarçar todo e qualquer tipo de sentimento sem no entanto o sentir.

Até ao dia em que se começou a rever nos outros. Começou a rever os seus defeitos e as suas virtudes, começou a ver os erros e tentou evitar os outros de o fazer. No meio de tanto isolamento não se conseguiu desprender de si mesmo tanto quanto ambicionava e pensava. E foi nesse momento que alguo o fez despertar. Após tantas voltas, algo o faria ver que, pelo menos, uma ténue parte do mundo não desistiu dele quando o podia ter feito bem antes de o conhecer. E é por isso que hoje em dia, ele se agarra com toda a força que tem a essa parte tão ténue do mundo. É tudo o que lhe interessa, pois foi essa parte tão pequena e insignificante para todo o mundo, menos para ele, que lhe devolveu a capacidade de sonhar, a capacidade de acreditar, a realidade e um novo ânimo.

Porque ele está cansado do mundo e o mundo desistiu dele; pelo menos na sua maioria porque aquela ínfima e ténue parte do mundo que não desistiu...essa terá toda a força que ele tiver e ele nunca irá desistir dela como o mundo desistiu dele."

- Espero que tenham gostado deste pequeno texto. Porque há dias assim, em que me desligo da realidade e deixo que a imaginação escreva, escreva e escreva...


terça-feira, 8 de julho de 2014

Estar como um todo ou não estar de todo

«Tudo muda com o passar dos anos. A mudança é uma constante da vida e condição humana. Será, então, necessário que essa mudança seja sinónimo, na maior parte das vezes, de passar de mais importante a irrelevante?»

Existem momentos na nossa vida em que pensamos nos caminhos que escolhemos para nós e nas pessoas que quisemos ter a nosso lado. Este último fim-de-semana (é assim que se escreve no novo acordo ortográfico, certo?) foi um desses casos em que me perco a pensar em todos esses pequenos pormenores.
De facto, foi neste fim-de-semana que descobri certas coisas que, não me tendo causado qualquer tipo de dor, me deixaram um bocadinho desiludido. Alguma vez disseram para vós próprios que vão descobrir algo? É que eu digo isso constantemente quando, e usando um termo popular, "adivinho chuva". E é com muita frequência que tenho este "sexto-sentido" de pressentir que algo não está bem ou que há algo mais para lá do que me foi contado. A minha postura é algo como sentar-me e esperar. Eu esperei e, num dos casos que, noutras condições, me poderia ter mandado de volta para sítios aos quais espero não voltar, descobri o que tinha para descobrir.

Tenho um feitio terrível. Dou tudo por uma pessoa de quem goste muito e uma vezes dou-me bem (os poucos amigos que tenho, têm-me em boa conta, dizem eles), outras dou-me mal e elas acabam por se afastar de mim. Depois há aquelas que não sei como reagir.

Sempre achei estranho e talvez o defeito seja meu. Talvez. É verdade que tenho prateleiras cheias de brinquedos e memórias da minha infância, bem como de livros. Os livros? Li todos e se necessário volto a lê-los ou a usá-los na busca de algo. Os brinquedos? São as minhas memórias e foram parar às prateleiras para que eu nunca me esqueça visualmente daquilo que eu já fui um dia; inconscientemente feliz. Nunca vi nenhum daqueles brinquedos ou livros como um objecto que, quando novo, era o meu preferido. Nunca os arrumei quando me fartava para nunca mais lhes mexer. Até porque durante muitos e longos anos, os meus brinquedos favoritos eram, por norma, os mais antigos...pelo seu significado.

Sim, estou a falar de brinquedos e livros e a dizer que não os vejo como objectos. Podia estar a falar do teclado midi com o qual vou tentando construir melodias no meu computador. Eu quis o teclado e quero mais material de música...mas não é por uma questão de confiança, porque podia fazer tudo usando o teclado e o rato do pc. Não tenho uma lista de coisas que quero. Tenho coisas que quero, que gostava de ter ou que tenho. E todas essas coisas, não são objectos. Para mim, todas essas coisas são memória, são brinquedo, são livros...são algo que me marcará para sempre. São coisas que um dia serão memória, mas serão boa memória.

Porque também eu, enquanto ser racional, por vezes tão acarinhado e tratado como alguém que, na minha terrível forma de ser, é tão importante para as pessoas ao ponto de mexer com a vida delas, também sou, por vezes, visto como um objecto...e eu não tenho perfil para ser o brinquedo novo que quando já não serve acaba na prateleira ou no baú e nem paciência tenho para ser o tipo "só preciso de ti quando estou mal". Ou estou como um todo ou não estou de todo.