sexta-feira, 27 de junho de 2014

Parabéns Língua Portuguesa.

« Apesar das ruínas e da morte, 
Onde sempre acabou cada ilusão, 
A força dos meus sonhos é tão forte, 
Que de tudo renasce a exaltação 
E nunca as minhas mãos ficam vazias. »

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Antologia Poética'


No dia em que se celebram 800 anos de existência da Língua Portuguesa e numa altura em que estamos muito próximos dos 10 anos da morte (2 de Julho) de uma das escritoras e poetas que eu tanto aprecio (facto curioso, todas as minhas professoras de Português adoravam Sophia de Mello Breyner Andresen), vejo-me forçado a escrever sobre esta língua da qual tanto orgulho sinto, mas que tantas e tantas vezes vejo ser mal-tratada.

É certo e sabido que, ao longo destes 800 anos, muitos têm sido os acordos ortográficos. Eu ainda sigo o antigo, pois um facto não é um fato e o acento circunflexo em "vêem" foi o que me ensinou a distinguir o verbo ver na terceira pessoa do plural para o verbo vir na mesma terceira pessoa. Espero que as minhas professoras de Português tenham orgulho em mim por isto, mas que me continuem a dar pela cabeça se assim o entenderem. Não concordo com certos aspectos (ou serão aspetos?), mas evolução é isto. Basta compararem um texto de Gil Vicente e Luís Vaz de Camões para perceberem isso. Não é suficiente? Comparem com Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Ainda é insuficiente? Juntem Sophia de Mello Breyner Andresen ou Florbela Espanca. Porque não Miguel Torga? Juntem-nos a todos. Vejam a evolução.



Não escondo o facto de saber que recentemente houve uma homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen na Casa da Música do Porto. Um gesto bonito e merecido. Tenho pena de não ter ido nem ter sabido que isto iria acontecer. Mesmo sabendo, não poderia ir por questões de deslocação e alojamento.

Celebra-se assim os 800 anos da Língua Portuguesa. Assinala-se dentro de dias os 10 anos da morte de Sophia de Mello Breyner Andresen. Parabéns à Língua Portuguesa, a única que língua do mundo que sabe o que é ter saudade.



Com Fúria e Raiva


« Com fúria e raiva acuso o demagogo 
E o seu capitalismo das palavras 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada 
Que de longe muito longe um povo a trouxe 
E nela pôs sua alma confiada 

De longe muito longe desde o início 
O homem soube de si pela palavra 
E nomeou a pedra a flor a água 
E tudo emergiu porque ele disse 

Com fúria e raiva acuso o demagogo 
Que se promove à sombra da palavra 
E da palavra faz poder e jogo 
E transforma as palavras em moeda 
Como se fez com o trigo e com a terra »


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

Amália Rodrigues - Fado Português

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Passos: um para trás; dois para a frente.

«É sempre complicado quando queres dar um passo em frente. As saudades do que fica para trás fazem-te duvidar do que podes conquistar. O medo de perderes ou errares o passo faz-te querer ficar onde estás. Arriscarias um salto de fé?»

É com alguma estranheza que observo o que me vai acontecendo e o que vai acontecendo à minha volta. Ninguém diria que à pouco mais de uma semana atrás estava a ponderar como atingir o ponto perfeito de esconder tudo o que eu tivesse de emoções. E consegui, até certo ponto. Não verti uma única lágrima, apesar de ter estado bem perto. Dei um passo em frente nesta cruzada de esconder emoções...passei bastante tempo sem sorrir. Um sorriso sincero.

É claro, para a família tinha sempre uma gargalhada ou um sorriso, mas daqueles como quem diz "age normalmente, que assim ninguém se preocupa". É difícil, não o recomendo a ninguém. Dói-nos e come-nos por dentro. Como se nos tivessem a arrancar qualquer pedaço do nosso interior ao ponto de sentir-mos os "cliques" e os "cracks" e ademais barulhos que possamos imaginar. Imaginem a pior dor que já tiveram dentro de vós e multipliquem-na por muito. E sabem porque dói? Porque estão a fazê-lo com sucesso e a pensar "e as pessoas que se preocupam e que gostam de mim? Elas não me merecem assim tão gélido!". Não merecem...mas são balas perdidas. São danos colaterais.

Tudo muda. Tive apoios dos mais fortes que existem. Eu não quebrei. Não me deixaram quebrar. A minha dúvida, o meu medo e receio é saber se foi meramente ajuda ou mais um de muitos sinais que eu vou ignorando. Ignorava porque não podia, porque tinha de ser, porque não os via como tal. Agora questiono. Leva-me a bom porto. É injusta esta posição em que me encontro porque, se por um lado é o que eventualmente quero, por outro, é os muitos factores que me obrigam a pensar com muita calma e a agir ainda mais lentamente ou, na pior das hipóteses, sorrateiramente. Eu não me quero esconder mais. Quero dar o passo seguinte. Quero, acima de tudo, estar bem e fazer bem.

As questões, essas, são simples de fazer, mas complexas de responder.
  • Será que devia ter sido este o meu primeiro passo?
  • Será que todo este caminho foi propositado para eu me sentir perder?
  • Será que me estou a iludir com nada?
  • Será que esse nada que me ilude e que eu questiono é o meu tudo?
  • Será que devo arriscar com tudo o que isso implica?

Só o tempo o dirá...mais cedo ou mais tarde? Veremos...

Hoje termino de forma diferente. Espero que gostem.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Que encontres o que procuras.

«O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.» Fernando Pessoa


Tentem imaginar alguém que caiu...com um joelho no chão e com o peito debruçado sobre o outro. Eu sinto-me assim. Não quero olhar em frente, apenas quero sentir os meus punhos e o único joelho que se mantém fora de contacto com o solo a aguentarem-me como se fossem os meus pilares.


Sim, eu sou um rapaz. Um rapaz que já devia ter aprendido a lidar com este tipo de perdas, mas o passado é assim; nós aprendemos com ele, ele volta a acertar-nos mais tarde.

É estranho perder alguém quando, em conversas descontraídas nas quais partilhamos sonhos e confissões do que esperamos para o futuro com amigos, dizemos que é com esse alguém que esperamos construir uma vida. Se na madrugada de Sábado tinha a certeza do que queria, hoje penso que foi uma bela chapada que levei da vida. Nunca digas aos outros aquilo que gostavas que te acontecesse a ti. Porque isso vai-se virar contra ti.

Não foi ela que me magoou ao dizer "acabou". Magoou-me foi o facto de eu ter visto nela o que não vi em mais ninguém. Eu sou cego. Poderia confidenciar muita coisa. Poderia dizer que a culpa foi minha ou dela. Poderia até dizer, passando aquela ideia de "estou pronto para outra", que já andava com outra rapariga debaixo de olho; estaria a mentir se o fizesse.

Poderia ter feito e dito tanta coisa. Sentimentos. Como um dia eu escrevi num dos meus esboços para músicas:

«Sem ti tento, sentir menos, sentimentos, que me fazem sentir medos».

Uma cadência tão bonita. Que eu devia guardar na minha cabeça para sempre como modo de vida.
Até um dia, minha querida.

Vem Sentar-te Comigo, Lídia

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 10 de junho de 2014

A minha vontade de viajar...

Nunca escondi de ninguém, nem de amigos, que alimento o desejo de um dia viajar. Gosto de conhecer novas cidades, novas pessoas, novos ambientes e novas culturas. Algumas cativam-me mais que outras, mas nunca digo não a uma visita.

No passado Domingo, dia 8, deu-se o término da Semana Académica da Escola Superior de Tecnologias de Abrantes. Era lágrimas, sorrisos, últimas despedidas ou breves "até já" e algumas palavras que envolviam a minha cidade. Algumas das palavras dos estudantes, que decidiram arriscar vir para esta pacata e hospitaleira cidade, era a de que levavam Abrantes, a cidade, as suas gentes e os amigos que por cá fizeram (de outras cidades ou desta) no coração para toda uma vida. Concordo que também alguns e algumas desses/as finalistas me ficaram no coração e apesar de perceber o motivo de todos eles levarem Abrantes no coração, faz-me alguma confusão a forma como eles falam de como se Abrantes fosse o lugar maravilhoso que dizem ser.

Eu nada tenho contra a minha cidade. Penso que Abrantes tem potencial mais que suficiente para crescer a um nível bastante agradável. O problema é que eu vi esta cidade com vida. Lembro-me de, quando criança, querer ir para os baloiços do Castelo de Abrantes ou até mesmo dos Plátanos em Alferrarede. Lembro-me de estar em contacto com a Natureza quase diariamente. Lembro-me de quando começaram a derrubar mato para construir prédios onde, desde a sua construção, apenas meia dúzia de apartamentos são habitados. Claro que os números não são assim tão baixos, mas dada a oferta, é pouco. Muito pouco.

Lembro-me de uma Abrantes com vida nocturna, onde os jovens abrantinos se divertiam, conviviam independentemente do seu grupo e do seu estatuto social. Casos de violência ou roubo eram poucos, mas eram controláveis. Lembro-me de ir para casa com os meus amigos às 6h e 7h da manhã, passar noites inteiras nas ruas de Alferrarede, freguesia que me habito e que defendo com unhas, e dentes e não ter um único problema.

Muita coisa aconteceu desde estas memórias alegres. Hoje, não há parques para as crianças, à obras mal feitas, à estradas sem sentido, rotundas que não dão para lado algum, oliveiras compradas por milhares que podiam ser aplicados em coisas mais importantes, ainda por cima sendo Abrantes conhecida pelos seus olivais e pelo seu azeite de qualidade, não há vida nocturna e a que há ou tem de ser à base do secretismo ou tem de ser controlada para evitar distúrbios...e é uma cidade que, ultimamente, anda a crescer em violência e problemas relacionados com drogas e roubos.

Caríssimos, não se iludam. Abrantes não é uma cidade a temer. Abrantes é apenas mal gerida, mal cuidada e mal tratada por quem tem a obrigação de tratar da cidade como se fosse a sua própria casa. Poderia entrar pela linha da crítica política, pois considero que grande parte da culpa é das pessoas que nos representam na Câmara que só actuam quando o mal lhes acontece a eles (há histórias caricatas que espero abordar mais à frente), mas também dos próprios cidadãos abrantinos que na sua grande maioria fecham os olhos ou assobiam para o lado porque "está tudo bem" e os que têm coragem de falar, por norma, fazem-no de forma isolada.

Vi hoje, numa página de facebook dedicada ao concelho de Abrantes, o estado de algumas peças importantes do nosso Castelo. Eu, que tenho orgulho em ter um Castelo carregado de história e que se revelou importante na conquista de Portugal aos Mouros, fiquei desiludido (mais um bocadinho) com a minha cidade. É inadmissível que um tratamento de desprezo seja dado ao Castelo. Fica como nota que eu, abrantino nascido e criado, visito o Castelo regularmente. Não visito outros sítios onde tudo está "um brinco". (nota: visitem a página de Abrantes. A quem a gere, muitos parabéns pela qualidade e pelas imagens que mostram a quem está mais longe de nós).

Posto isto, o motivo que me levou a escrever este post, é o facto de a minha namorada, que habita em Leiria, partilhar regularmente coisas que acontecem na cidade; é o Estádio que vai abrir para ver os jogos da Selecção, é Teatro de Rua, é Feiras disto e daquilo, é festas que duram uma semana com GRANDES artistas...e eu pergunto-me "Porque ainda estou eu em Abrantes? Porque não saio eu daqui?"A resposta é simples; porque ainda não posso. Gosto de cidades dinâmicas. Abrantes já foi uma cidade dinâmica...cidade florida que faz uma festa das flores de uma tarde. Cidade de animação, que nem cinema tem. Cidade cujas festas duram uns míseros 4 dias e têm cartazes anedóticos demais para quem já trouxe The Kelly Family à uns valentes anos atrás, que tinha fogo de artifício que fazia chorar os céus, que me fazia pensar "quero viajar e conhecer, mas é aqui que quero viver". Hoje tenho 25 anos e mudei esse meu pensar. Hoje quero viajar e conhecer, mas em Abrantes...já não quero viver. O Hospital mal funciona. A vida nocturna é uma miragem. O Tribunal está para ser fechado. A segurança é apenas uma palavra bonita bradada aos quatros cantos e que ecoa pelo vazio desta cidade (repito: pelo vazio; devia ser pelas pessoas).

Eu percebo os estudantes, mas em Abrantes? Já nada é como dantes...e tenho pena que assim seja. Que evoluísse, mas que não se tivesse tornado numa cidade fantasma.